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de poderosos coronéis, que possuem terras e almas por vastas áreas de todo
aquele Brasil. Durante um longo período, e através de várias obras literárias e suas
adaptações para o cinema, pudemos perceber a figura desses sertanejos
como a de homens de baixa estatura, mirrados pela alimentação irregular
(permeada por ciclos de escassez alimentar), de pele queimada pelo forte
sol que assola a região diariamente, de mão marcada pela labuta diária no plantio da cana ou do algodão (do cacau, do tabaco,...), de roupas
simples e de pés no chão.
Povo constantemente cerceado em sua liberdade pelas restrições impostas
pelos caciques
políticos, que comandavam do alto de sua autoridade os
seus currais eleitorais; marcado em seu comportamento pelas imposições
morais da Igreja Católica; castrado em seus posicionamentos
pelo
analfabetismo e pela falta de informação.
Apesar de tudo isso, o "sertanejo é um forte" (como nos disse Euclides
da Cunha). Homens de
muita perseverança, de fibra, de grande disposição,
sempre dispostos a vencer as adversidades
que se impõem ao longo de seus
tortuosos caminhos. Criadores de formas marcantes de expressão cultural
como a literatura de cordel; que possuem a música em sua corrente
sanguínea, como
parte integrante de sua natureza; realizadores de obras
de estética original e própria
através de seu artesanato.
O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, uma das obras-primas da
literatura nacional, e principalmente, seus personagens centrais,
representam a transposição de todas as características apresentadas
anteriormente acrescidas a uma grande esperteza.
Dá enorme gosto ler o livro. Retratos de uma brasilidade que às vezes
parece distante dos habitantes do centro-sul e que, no entanto, também
fazem parte de cada um de nós.
A História
A divertida história João Grilo, um sertanejo pobre e mentiroso, e Chicó, o
mais covarde dos homens. Uma dupla de nordestinos que se envolve em uma
série de aventuras.
Ambos lutam pelo pão de cada dia e atravessam por vários episódios enganando
a todos da
pequena cidade em que vivem.
Em O Auto da Compadecida estes dois trapaceiros, ardilosos e
espertalhões, tentam sobreviver
em uma pequena cidade do
nordeste, no vilarejo de Taperoá,
sertão da Paraíba.
Os dois nordestinos sem eira nem beira, andam pelas ruas anunciando A Paixão
de Cristo,
"o filme mais arretado do mundo".
A sessão é um sucesso, eles conseguem alguns trocados, mas a luta pela
sobrevivência continua.
João Grilo e Chicó preparam inúmeros planos para conseguir sobreviver. Novos
desafios vão surgindo, provocando mais confusões armadas pela esperteza de
João Grilo, sempre em parceria com Chicó que se divertem enganando na melhor
tradição do jeitinho brasileiro
A trama começa a ser hilariantemente tecida quando os dois amigos se empregam
numa padaria,
e passam a se relacionar com seu avarento padeiro e sua
mulher, Dora, muito namoradeira. Explorados pelos patrões, que lhes concedem
tratamento inferior aos animais da casa, os dois, aturdidos pela
irresistível compulsão que fundamenta a ambição, vêem uma chance de ganhar
alguns trocados quando a cadelinha de estimação da mulher morre e os dois
organizam um enterro de luxo, em latim – o que vai criar um conflito no
âmbito da igreja, entre o padre e o bispo, assim como com o coronel, todos
engabelados por João Grilo, na sua tentativa deslavada de emendar
o
mal-feito, sempre obtendo vantagens.
Mas a chegada da bela Rosinha, filha de Antonio Moraes, desperta a paixão de
Chicó, e ciúmes
do cabo Setenta, outro pretendente á mão da virgem nubente.
Os planos da dupla, envolvem o casamento entre Chicó e Rosinha e a posse de
uma porca de barro recheada de dinheiro.
As peripécias destes personagens são interrompidos pela chegada do
sanguinário cangaceiro Severino de Aracaju. Apesar de toda a lábia, João
Grilo acaba morrendo e Vai para o purgatório..
Uma vez do outro lado da vida, todos os mortos reencontram-se no Juízo
Final, onde serão julgados no Tribunal das Almas por um Jesus negro e pelo
diabo.
O destino de cada um deles será decidido pela aparição de Nossa Senhora, a
Compadecida e
traz um final surpreendente, principalmente para João Grilo
que resolve a apelar para Nossa Senhora
para ver se escapa literalmente de um destino pior do
que o inferno.
João recorre a sua inteligência para convencer o Juiz, Jesus Cristo, a
salvá-lo
das chamas do inferno, e evoca Nossa Senhora a, mais uma vez, socorrê-lo.
Comentário Crítico
Escrita pelo dramaturgo e escritor pernambucano Ariano Suassuna, em meados
da década de 50, reproduz o modelo de textos religiosos encenados em
procissões e átrios de igrejas, como era
comum naquele tempo, mantendo-se
uma tradição medieval e renascentista que parece ter vindo
de Portugal, ou
do mundo ibérico (entre os autores mais conhecidos podemos referir Lope da
Veja, Calderon de La Barca e Gil Vicente), e sido introduzido entre nós no
século XVIII,
sendo o caso, por exemplo, dos Auto dos Reis Magos, e toda sorte de
performances dramáticas encenadas nas procissões de Corpus Cristi, Natal,
Páscoa, etc.
Acresce-se a isto o fato de que todas as histórias aqui alinhavadas foram
recriadas a partir
de histórias outras, retiradas do universo da poesia popular brasileira,
também conhecidas
como “literatura de cordel”.
De acordo com o próprio Suassuna, baseado em romances e histórias populares
do Nordeste, e
em certa tradição circense. Tradição, aliás, claramente reconhecível na
estruturação dos seus dois personagens principais: João Grilo é o palhaço
espertalhão, secundado por Chico, ingênuo
e covarde. O palhaço e a besta!
Lendo esta peça, podemos sentir sua força poética e popular, o catolicismo
que ela transmite, a simplicidade dos diálogos.
A estrutura teatral e os tipos vivos fazem desta obra um exemplo raro na
dramaturgia brasileira. Vemos os tipos de personagens nordestinos, e vemos
também o tipo bem brasileiro neles, que é
o de "dar conta do recado" com o famoso "jeitinho" brasileiro.
Aqui vemos a forma de criação dos personagens segundo o autor:
Meus personagens ora são recriações de personagens populares e de folhetos
de cordel, ora são familiares ou pessoas que conheci.
No Auto da Compadecida, por exemplo, estão presentes o Palhaço e João Grilo.
O Palhaço é inspirado no palhaço Gregório da minha infância em Taperoá. Já o
João Grilo é o típico nordestino amarelo, que tenta sobreviver no sertão de
forma imaginosa.
Costumo dizer que a astúcia é a coragem do pobre. O nome dele é uma
homenagem ao
personagem de cordel e a um vendedor de jornal astucioso que eu
conheci na década de 50 e
que tinha este apelido.

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"Vemos que o catolicismo está presente devido ao grande apego que os
nordestinos tem a DEUS
e o grande medo do diabo, vemos também que os
personagens masculinos expressam o tipo "machões", mais na verdade alguns
deles são muito medrosos, principalmente quando se envolve
a figura de
forças superiores.
O livro mostra a esperteza de muitos personagens também, é o caso de João
Grilo, que aplica
vários "golpes" ao decorrer da história, dando uma de
personagem malandro e aproveitador
dos idiotas e ingênuos.
O Auto da compadecida é, principalmente, um documento sobre a sociedade
brasileira.
Retrata seu lado burlesco, ou seja, aquele em que a própria figura humana,
mesmo vista na
sua miserável lida, torna-se engraçada.
Cômicas parecem ser as histórias, sem dúvida, porém enormemente trágicas.
São tragicômicas as tramas destas histórias, intricadas por personagens
tipicamente brasileiras,
na grandeza de sua fé, na pequenez de pequenos
gestos sorrateiros, na ingenuidade e na
esperteza da viva inteligência de
alguns, na malfadada sina de outros, nas traições habilmente urdidas, no
poder de poucos sobre muitos e, sobretudo, na crença da vitória do amor e
da
justiça divina.
Por tudo isso, se ousará reafirmar aqui, peremptoriamente, de que o livro é
um documento de
nossa cultura brasileira, e que tem de ser analisado a luz do par conceitual
relacionada a
esta idéia de cultura, no caso as palavras-chaves Nacional e Popular.
Os estudiosos da história, aliás, tem uma conhecida fórmula que ensina que
um documento –
como é o caso do livro - sempre nos fala profundamente, desde que saibamos
como indagá-lo.
Vejamos, assim, como podemos criar uma problemática em torno do livro mencionado,
considerando-se, inclusive, o tipo de questão que pode ser
proposta no
vestibular, e que, provavelmente, buscaria uma analogia com
algum contexto,
a exemplo do suscitado pela indagação sobre a identidade e caráter nacional
dos brasileiros; ou seja, o
povo e a nação brasileira, na sua problemática básica:
quem somos nós os brasileiros?
por quê somos assim?
Como viemos a nos tornar o que somos?
Como e com que nos identificamos como nação e como povo?
E, sobretudo, faz sentido, em um mundo como o nosso, um país como o que
temos?
É com base nesta problemática geral que vamos reivindicar aqui nosso
argumento para que se possa ver a obra.
Pautaremos, assim, nossa apreciação crítica em algumas questões básicas, a
seguir expostas.
Qual é a temática e como se estrutura a narrativa da
obra?
O tema geral pode ser apreendido a partir de algumas questões que podemos
formular,
concernentes a história do livro, ao caráter de seus personagens, e ao fim a
que se propõe originalmente seu texto, isto é, o propósito moralizador que é
próprio a um tipo de teatro
popular brasileiro.
Auto, como designado no título, é um tipo de encenação popular, corrente
durante muito tempo
no nordeste do Brasil, e que se propunha a um ensinamento religioso.
Os autos tinham a função de levar ao público as exemplares vidas dos santos,
assim como os
atos que os dignificaram.
O auto obedece a um modelo de composição, uma das formas teatrais e
dramatúrgicas, que está muito ao gosto do povo, sua função sendo o de
instrumento de catequese, didática pelo
ensinamento teológico dos
evangelhos, moralizante através do exemplo cristão da vida dos santos.
Encenam-se nos autos, portanto, enredos populares, e no caso brasileiro
renovado pelo caudal
de elementos indígenas e africanos (lapinhas, pastoris, congadas, etc.) e
personagens folclóricos eivados do próprio povo.
O auto aqui é da compadecida, porque fala justamente de Nossa Senhora
Aparecida, padroeira
dos brasileiros. (Compadecida porque se compadece do ser humano, conforme
pode ser visto no
final da história, quando a mesma é chamada a interceder
em favor de João Grilo).
Vale mencionar também, que outra tradição literária que se relaciona a João
Grilo é o herói picaresco Pedro Malazarte, tradicional na oralidade popular.
Figurando na construção da visão de mundo de nosso povo, personagens como
estes dois, supracitados, expõem idéias, histórias,
imagens, falas, temas,
motivos. Aquilo que é a expressividade da vida do povo brasileiro.
Como a obra deve ser visto e analisada?
Na verdade, existem diversas maneiras de se ler um livro.
note-se, por exemplo, que os personagens foram caracterizados de modo
exagerado e
caricato, o que faz com que o livro tenha inclusive um caráter frenético.
Pode-se buscar, neste livro, o conteúdo da história analisando-o a partir de
alguns referenciais teóricos básicos: histórico, psicológico, psicanalítico,
etc.
Seria sociológico, por exemplo, quando se quer entender a sociedade que o
produziu
e que por esse é retratado. No caso, a sociedade brasileira. Nordestina,
agrária.
Neste plano sociológico pode-se ver também os diversos aspectos políticos
que são particulares desta sociedade, com sua estratificação social própria,
bem como sua forma de mandonismo com
o poder encarnado na figura do coronel.
Neste sentido acreditamos que a chave do nacional e do popular bem explica a
obra.
Poder-se-ia ver o aspecto religioso também, notadamente aquela religiosidade
católica devocional, própria ao meio nordestino, com seu misticismo, sua
visão de mundo, seu valores éticos, seu imaginário (Note-se que na seqüência
do julgamento os deuses são humanos, nas
suas grandiosas disputas; as geografias hierofânicas também são imaginadas,
repare como o
céu é cheio de regras morais e o inferno, que só podemos entrever através de
uma porta, está abarrotado de sofredores que padecem nas chamas eternas).
No que tange a religiosidade observe-se particularmente a figura da Virgem,
afinal o auto é construído para louvá-la na sua justiça misericordiosa, e se
sua aparição é curta no enredo,
repare-se que ela é decisiva para o desfecho
da história.
A Virgem, que povoa o imaginário brasileiro, é a maternal, mãe dolorosa,
Nossa Senhora.
É a mediadora divina, aquela que gerou o filho de Deus, a Compadecida,
aquela que por força
deste amor materno interfere piedosamente a favor dos
homens, e em torno da qual se construiu uma forte devoção mariana, que, não
raro, distinguia o catolicismo devocional daquele
catolicismo oficial (Repare-se no tom satírico com que o pároco e o bispo
são retratados, como sujeitos sem moral, destituído de escrúpulos, e
querendo sempre levar vantagem.
O texto é crítico a igreja, sem contudo ser iconoclasta aos símbolos da
religiosidade brasileira, ou seja, não é de maneira alguma blasfemo.
Pode-se ver, também, ainda sobre esta chave do nacional e popular, a
profunda sátira social
que está contido no filme.
Para esta sátira é empregada uma linguagem visual, palpável e concreta – são
casos, estórias,
fatos evocados. São casos que envolvem questões
fundamentais dos nossos valores sociais,
dentre os quais a ambição e a justiça.
Repare que toda a trama se desenvolve em torno de dinheiro, o que revela uma
censura a ambição
cega. Em contrapartida, a justiça é julgada por um juiz sereno, aquele que
se situa acima dos
homens. (Repare-se que no livro o Cristo, ou simplesmente
Manuel, é negro, isto foi posto intencionalmente na peça por Suassuna, que
faz blague com a questão racial brasileira).
Que elementos da vida social brasileira encontramos na
obra?
Em primeiro lugar um forte elemento identitário, ou seja, das
características que afirmam a identidade do brasileiro enquanto brasileiros:
linguagem, hábito e costumes, o caráter
nacional nos seus aspectos psicológicos, isto é, o modo de sentir, o modo de
pensar próprio
de nosso povo.
Acredito que é para este caráter dos brasileiros que pode ser apontada com
mais foco a
análise.
O mote da história, como lembra certo crítico é que “mentira com fé, nem
sempre é pecado”,
o que parece fazer parte da visão de mundo do brasileiro.
Portanto, nenhuma outra explicação poderia ser tirada que não visse o
brasileiro como engraçado, engenhoso, satírico, e disposto a tudo para
ganhar a vida.
Mas, sobretudo, este brasileiro deve ser visto como um forte
(lembre-se aqui Euclides da Cunha
e o que ele diz dos sertanejos), capaz de
sobreviver a todos os percalços que a vida lhe impõe,
capaz, sem dúvida, em
de dar um jeitinho em tudo (inclusive na morte, como se pode concluir
pelo
desfecho da história).
Por fim, urge uma última questão:
É possível estabelecer um paralelo entre a história e a vida contemporânea? Sem a menor dúvida, o sucesso estrondoso do texto de Suassuna tem
atravessado varias
gerações, merecendo montagens no rádio, no cinema (três adaptações), e também na
televisão
(duas adaptações).
O interesse do público, nos prova de que o tema geral que ele aborda é
atemporal, fortemente ancorado numa tradição brasileira e que, por isso
mesmo, está presente no nosso cotidiano.
Os valores, a visão de mundo e o modo como esses sancionam certa noção do
que somos, enquanto brasileiros, diferentes de qualquer outro povo, em
processos históricos e culturais, é a principal contribuição da obra para que possamos pensar a vida
contemporânea.
O Auto da Compadecida e o Estilo de Época
O teatro, isto é, o texto teatral é uma forma cultural, diferente de outras
formas culturais que
têm no texto seu veículo de comunicação. Uma peça
teatral, portanto, não é a mesma coisa que
um romance, um conto ou um poema,
esses últimos indicativos de outra
forma cultural, a Literatura.
Em linhas gerais, o teatro recebe um impacto muito maior dos
condicionamentos de um dado momento histórico, do que, por outro lado,
recebe a literatura. Esses impactos se refletem na temática, no tratamento
do assunto, nas técnicas propriamente teatrais (cenarização, cenografia,
ritmo, iluminação, etc.). Por outro lado, uma peça teatral pode descobrir
motivos de criação em outras modalidades, essas que podem ou não interessar
à Literatura.
Uma tragédia de Ésquilo, concebida nos elementos estruturais da cultura
grega clássica, pode adquirir uma roupagem interpretativa moderna, e, como
representação de um texto, ser perfeitamente assimilável pelo público
contemporâneo, tornando-se com isso uma peça moderna.
O grande dramaturgo brasileiro, Guilherme de Figueiredo, compôs uma série de
textos do teatro moderno brasileiro, que consistem na imposição de uma nova
“roupagem” a determinados temas
da cultura grega clássica.
Em resumo, quando tentamos verificar a que estilo de época se liga um texto
teatral, deveremos fazê-lo, não em função de critérios válidos para a
Literatura, mas em função de critérios possíveis para a história do teatro.
Nesse sentido, verificamos que Auto da Compadecida apresenta os seguintes
elementos que permitem a identificação de sua participação num determinado
estilo de época da
evolução cultural brasileira:
1 - O texto propõe-se como um auto. Dentro da tradição da cultura de língua
portuguesa, o auto é uma modalidade do teatro medieval, cujo assunto é
basicamente religioso. Assim o entendeu
Paula Vicente, filha de Gil Vicente,
quando publicou os textos de seu pai, no século XVI,
ordenando-os
principalmente em termos de autos e farsas.
Essa proposta conduz a que a primeira intenção do texto está em moldá-lo
dentro de um enquadramento do teatro medieval português, ou mais
precisamente dentro das perspectivas do teatro de Gil de Vicente, que
realizou o ideal do teatro medieval um século mais tarde, isso no
século
XVI, portanto, em plano Quinhentismo (estilo de época).
2 - O texto propõe-se como resultado de uma pesquisa sobre a tradição oral
dos romanceiros e narrativas nordestinas, fixados ou não em termos de
literatura de cordel.
Propõe, portanto, um enfoque regionalista ou, pelo
menos, organiza um acervo regional com
vistas a uma comunicação estética
mais trabalhada.
3 - A síntese de um modelo medieval com um modelo regional resulta, na peça,
como concebida
pelo autor. Se verificarmos que as tendências mais
importantes do Modernismo definem-se no esforço por uma síntese nacional dos
processos estáticos, poderemos concluir que o texto do
Auto da Compadecida
se insere nas preocupações gerais desse estilo de época, deflagrado a
partir
de 1922, com a Semana de Arte Moderna, em São Paulo.
Um modelo
característico dessa síntese se encontra em Macunaíma, de Mário de Andrade,
de 1927, e em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1956), entre outros.
O Estilo do Autor
Entende-se por estilo do autor a modalidade de manipulação criadora através
da qual o escritor
cria sua obra. O estilo do autor, portanto, é a linguagem
através da qual o texto alcança sua
forma final e definitiva.
Quando se faz a interpretação de uma peça teatral, o estilo do autor deve
ser analisado dentro
de uma perspectiva totalmente diferente daquela que
adotaríamos para a interpretação do
romance, do conto, da novela, do poemas
– da Literatura, enfim.
Isso acontece porque a concepção do texto teatral baseia-se na finalidade do
mesmo:
a representação por atores.
Já o texto literário é concebido para ser
lido e meditado pelo leitor, assumindo, portanto,
outra feição.
Feita essa observação, vamos reparar que Ariano Suassuna procura definir a
forma final de
seu texto através dos seguintes elementos:
1 - O Autor não propõe, nas indicações que servem de base para a
representação, nenhuma
atitude de linguagem oral que seja regionalista.
2 - O Autor busca encontrar uma expressão uniforme para todas as personagens,
na presunção
de que a diferença entre os atores estabeleça a diferença nos
chamados registros da fala.
3 - A composição da linguagem é a mais próxima possível da oralização, isto,
é, o texto serve
de caminho para uma via oral de expressão.
4 - Os únicos registros diferentes correm, como indicados no próprio texto,
por conta:
a) do Bispo, “personagem medíocre, profundamente enfatuado” (p.72), como se
nota
nesta passagem: “Deixemos isso, passons, como dizem os franceses”
(p.74).
b) de Manuel (Jesus Cristo) e da Compadecida (Nossa Senhora), figuras
desataviadas,
embora divinas, porque são concebidas como encarnadas em
pessoas comuns, como
o próprio João Grilo:
MANUEL: Foi isso mesmo, João. Esse é um dos meus nomes, mas você pode me
chamar de
Jesus, de Senhor, de Deus... Ele / isto é, o Encourado, o Diabo /
gosta de me chamar Manuel
ou Emanuel, porque pensa poder persuadir de que
sou somente homem.
Mas você, se quiser, pode me chamar de Jesus. (p.147)
A COMPADECIDA: Não, João, por que iria eu me zangar? Aquele é o versinho que
Canário Pardo escreveu para mim e que eu agradeço. Não deixa de ser uma
oração, um
invocação. Tem umas graças, mas isso até a torna alegre e foi
coisa de que eu sempre gostei.
Quem gosta de tristeza é o diabo (p.171).
5 - Quatro denominações de personagens referem-se a determinados
condicionamentos
regionais: João Grilo, Severino do Aracaju, o Encourado (o
Diabo) e Chicó.
Quanto ao Encourado, o Autor dá a seguinte explicação:
Este é o diabo, que, segundo uma crença do sertão do Nordeste, é um homem
muito moreno,

que se veste como um vaqueiro. (p.140)
6 - Na estrutura da peça, isto é, na forma final do texto é que se revela o
estilo do
Autor, concebido com o a linguagem através da qual ele cria e comunica
sua mensagem fundamental.
Os Personagens
A peça apresenta quinze personagens de cena e uma
personagem de ligação
e comando do espetáculo.
JOÃO GRILO: O personagem central, presença fundamental
em todas as seqüências da peçaCHICÓ:
Companheiro constante de João Grilo
O PALHAÇO: Que faz a apresentação dos personagens e
alguns relatos
A COMPADECIDA. É Nossa Senhora que
funciona como medianeira, plena de
misericórdia, intervindo a favor de quem nela crê.
MAJOR ANTÔNIO MORAIS: É a autoridade
decorrente do poder econômico,
resquício do coronelismo nordestino, a quem se curvam a política,
os sacerdotes e a gente miúda.
O ENCOURADO ou DEMÔNIO.
Representa um lado da justiça em benefício próprio,
isto é, o aumento da clientela do inferno.
MANUEL. É o Cristo negro, justo e onisciente, encarnação do verbo e da lei.
Atua como julgador final da prudência mundana, do preconceito, do falso testemunho, da velhacaria, da arrogância, da simonia,
da preguiça.
PADEIRO: Encarna, a exploração do homem pelo homem
DORA a mulher do padeiro que representa o lado adúltero na história
BISPO: concentrado em torno de simonia e da cobiça
PADRE JOÃO: Concentrad o em torno de simonia e da cobiça
SACRISTÃO: concentrado em torno de simonia e da cobiça
SEVERINO DO ARACAJU: Representa a crueldade sádica
ROSINHA: A filha do coronel pretendida por Chicó e o Cabo Setenta
CABO SETENTA : A autoridade do lugar, controlado pelo coronel
Problemática da Obra
Pela estrutura da peça, pudemos notar que:
1 - sua intenção clara e expressa é de natureza moral, e de moral católica;
2 - os componentes estruturais do texto revelam personagens que simbolizam
pecados
(maiores ou menores), que recebem o direito ao julgamento, que gozam
do livre-arbítrio
e que são ou não condenados.
Percebe-se, de outro lado, que a preocupação maior reside em compor um auto
de
moralidade, ao estilo quinhentista português (modelo Gil Vicente), mas
seguindo alinha
do teatro dirigido aos catecúmenos, do Padre Anchieta.
Para tanto, a peça se embasa em determinadas tradições localistas e
regionalistas
do folclore,
com vistas à sua sublimação como instrumento
pitoresco de comunicação com o público
(que, no caso, seriam os
catecúmenos).
Com isso, nota-se que a realidade regional brasileira, especificamente a
realidade nordestina,
está presente através de seus instrumentos culturais
mais significativos, as
crenças
e a literatura de cordel.
O autor não pretende analisar essa realidade brasileira, mas a partir dela
moralizar os homens,
isto é, dinamizar nas usas consciências a noção do
dever humano e da responsabilidade de
cada um em relação a seus semelhantes
e em relação a Deus, onisciente e onipresente.
Conclusão - Síntese
Como proposição estética, o Auto da Compadecida procura corporificar as seguintes noções:
1 - a criação artística, o teatro em particular, devem levar o povo, a
cultura desse povo a
ele mesmo. Daí o circo, seu picadeiro e a representação
dentro da representação.
2 - menos do que essa realidade regional e cultural de um povo, o que importa
é criar um
projeto que defina idéias e concepções universais (as da Igreja,
no caso) com o fim de consciencializar o público.
Por esse motivo a
realidade regional nordestina é, no caso, instrumento de uma idéia e
não fim
em si nessa;
3 - criar um texto teatral é, antes de tudo, criá-lo para uma encenação, daí
a absoluta
liberdade que o Autor da para qualquer modalidade de encenação.
O próprio texto final
a peça, como editado, é o resultado da experiência
colhida a representação pública.
O Autor
Ariano Suassuna, professor da Universidade Federal de Pernambuco, e
responsável por um
dos mais importantes grupamentos musicais do Brasil – Armorial -,
é natural da Paraíba,
onde nasceu em 1927.
Jornalista, escritor,
crítico teatral, membro do Conselho Federal de Cultura (1968-1972),
Bacharelou-se em Direito, em 1950. Escreveu diversas peças teatrais, e
concluiu o Auto da Compadecida em 1955.
A peça foi representada no Primeiro
Festival de Amadores nacionais em 1957, no Rio de
Janeiro, tendo sido
premiada. Com isso ganhou curso nos grandes centros teatrais do sul do País.
Proposta de Estudo Didático
1 - Indicar a leitura de Ariano Suassuna é chover no molhado, mas não custa nada
lembrar que a literatura brasileira é riquíssima e que serve de referência
fundamental para que possamos
entender um pouco mais de nosso povo e de
nosso país.
Ler "O Auto da Compadecida" devia ser a regra, não como alguma
coisa imposta, mas como
uma forma de nos encontrarmos com nossas raízes, com
nossa brasilidade, com o melhor de
nosso senso de humor fino e qualificado.
2 - Proponha a seus alunos a leitura do livro e, posteriormente, deixe que eles
vejam o filme!
Realize entrevistas e pesquisas de campo a respeito da vida do sertanejo
nordestino
atualmente pode ajudar a complementar (e reafirmar ou reorientar)
a visão que temos da
vida nessa região.
As relações sociais, o trabalho, o
modo de se vestir e se alimentar, as tradições religiosas, as dificuldades
próprias dessa localidade,... No caso das pessoas que vivem distantes,
pesquisas
e entrevistas através da internet podem facilitar o trabalho;
outra opção seria procurar
pessoas que vieram das regiões sertanejas e
entrevistá-las.
3 - Um dos fatores decisivos para compreender os problemas da região é o
sistema político que predominou e ainda domina regiões e cidades do interior
nordestino. A "indústria da seca", os "votos de cabresto", os "currais
eleitorais", os "eleitores fantasmas" e tantos outros dispositivos
utilizados no passado e no presente do Nordeste brasileiro (e também em
outras regiões), fazem parte de uma herança das mais desagradáveis, o
coronelismo. Estimule seus alunos a buscar mais informações sobre esse
fenômeno!
4 - Outra notável marca da região é a economia agrária, pautada na exploração
de gêneros
tropicais como o açúcar, o tabaco, o algodão e o cacau.
Como anda
a economia nordestina atualmente?
O clima foi fator determinante para o
predomínio dessas culturas na agricultura local?
De que forma variaram as
técnicas agrícolas entre o passado colonial e o presente da região?
Que
outras atividades desenvolveram-se ao longo da história local?
Que tal
preparar atividades com gráficos e painéis demonstrativos da evolução
econômica
da região sertaneja?
É outro viés a ser explorado para a plena
compreensão do mundo retratado por Ariano Suassuna.
*FONTES
João Luís Almeida Machado
Mestre em Educação, Arte e História da Cultura (Universidade Presbiteriana
Mackenzie,
em São Paulo); Professor universitário atuando na Faculdade Senac em Campos do Jordão;
Professor de Ensino Médio e Fundamental em Caçapava, SP;
Editor do Portal
Planeta Educação
Cláudio Luiz Pereira
Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Antropólogo da Universidade
Federal da Bahia. Professor de Cinema Brasileiro na Faculdade de Tecnologia
e Ciências – FTC.
http://www.coladaweb.com/resumos/autocompadece.htm
http://www.zerozen.com.br/video/autocomp.htm
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Eustáquio Lagoeiro Castelo Branco Webmaster, Webwriter, professor graduado em história e sociologia,
pós-graduado com especialização em informática educacional eduquenet@eduquenet.net |
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