Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti.
Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe,
em
Port-au-Prince, qual é o problema:
- Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.
E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números.
E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem
quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro
quadrado.
Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza
dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti
está superpovoado... de artistas.
Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais
falavam mais claro.
A Tradição Racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se
quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que
proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa
e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma
tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização".
Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz:
Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses.
O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com
mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado
sem papas na língua:
O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção.
Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o narigão achatado que é quase impossível deles ter pena.
Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e
sobretudo uma alma boa, num corpo
inteiramente negro.
Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela
sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagabundos também por natureza, e a
natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar
o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino.
Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: Vagabundo, preguiçoso, negligente,
indolente e de costumes dissolutos.
Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro pode desenvolver certas habilidades
humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras.
A Humilhação Imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa
jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca.
O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão
de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco.
Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que
os negros foram, são e serão
inferiores.
A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela
monocultura do açúcar e arrasada
pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio.
A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia,
ninguém a reconhecia.

O Delito da Dignidade
Nem sequer Simon Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento
diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando
a Espanha já o havia
derrotado, graças ao apoio do Haiti.
O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos,
uma idéia que não havia ocorrido ao Libertador.
Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande
Colômbia, deu as costas ao país
que o havia salvo.
E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas
convidou a Inglaterra.
Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres,
um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos
porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis.
Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao
pagamento da dívida francesa.
A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido
o delito da dignidade.
A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma
história do racismo
na civilização ocidental.
Para saber mais
LIVROS
.
Criatividade e Processo de Criação - Fayga Ostrower, Vozes.
O Código do Ser - James Hillman, Objetiva
.
Mentes Extraordinárias - Howard Gardner, Rocco
.
A Banheira de Arquimedes - David Perkins, Ediouro
Groucho-Marxismo - Bob Black, Conrad
.
The Tree House - Naomi Wolf, Simon Schuster
Leia Também....
Riobaldo Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa
Um Certo Capitão Rodrigo de Érico Veríssimo
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